Uma corrida silenciosa e ecológica

São Paulo – “Você se lembra do ‘zuuuum’ que faziam os Pod Racers durante uma corrida disputada no primeiro episódio da série Guerra nas Estrelas? É esse o tipo de barulho que queremos nos nossos carros.”

Quem diz isso é Paul Faithfull, diretor técnico da Westfield Sportscars, empresa que está construindo uma frota para disputar a EV Cup (sigla em inglês para Copa dos Veículos Elétricos), primeiro campeonato mundial de automobilismo para carros movidos a bateria. Se tudo correr de acordo com os planos, a largada da etapa inicial da competição acontecerá no dia 26 de novembro no circuito da Mazda, em Laguna Seca, na Califórnia. Ajustar o barulho dos iRacers, como estão sendo chamados os bólidos dessa nova categoria, é apenas um dos inúmeros desafios que Faithfull e seus colegas vão enfrentar para atrair os fãs de automobilismo, acostumados com o rugido dos motores V8 dos carros da Fórmula 1. A ideia de promover uma categoria com veículos elétricos ganhou força no ano passado, impulsionada pelo burburinho causado pelo lançamento de modelos como o Chevy Volt, da GM, e o Nissan Leaf.

Mais importante, uma temporada da EV Cup ajudaria a desenvolver essa nova tecnologia e faria pelos carros elétricos o que a Fórmula 1 fez pelos automóveis convencionais. A Federação Internacional do Automobilismo (FIA), organização que controla a modalidade, está convocando a apresentação de idéias de uma Fórmula E, campeonato de veículos elétricos que deve começar em 2013. A entidade espera agora por propostas de pessoas interessadas em organizar a competição. “Queremos uma ligação clara entre a EV Cup e os carros elétricos comuns”, diz Bernard Niclot, diretor técnico da FIA. “Acreditamos que as provas de Fórmula E do século 21 vão motivar o desenvolvimento dessa tecnologia.”

Algumas empresas já estão se preparando para investir na nova categoria. O piloto e empresário Paul Drayson está colaborando com a Lola Cars no desenvolvimento de um sistema elétrico – composto por baterias, sistema de controle e motores elétricos – para um carro de corrida capaz de atingir 320 quilômetros por hora. Antes disso, vai pilotar um iRacer na EV Cup. “Dos espelhos retrovisores aos freios antiderrapantes, dos turbos aos freio a disco, tudo veio da Fórmula 1”, afirma Drayson. “Precisamos de um campeonato para encorajar a inovação que vai diminuir o preço dos carros elétricos.”

Fazer um carro elétrico atingir alta velocidade não será um problema. Em meados de setembro, a montadora japonesa Toyota quebrou o recorde de volta mais rápida feita por um veículo movido a bateria no circuito de Nürburgring, na Alemanha. A 260 quilômetros por hora, ele reduziu em 73 segundos o recorde anterior, completando a volta em 7 minutos e 48 segundos. O recorde com um carro comum, movido a gasolina, é de um Radical SR8, que faz o circuito um minuto mais rápido. A Toyota está analisando a possibilidade de se envolver na Fórmula E, seja como uma fabricante ou fornecedora de tecnologia.

Enquanto a EV Cup não quebra nenhum recorde, a expectativa é que ela se torne um evento esportivo que pelo menos gere audiência. Seus apoiadores, os empreendedores ingleses Andrew Lee e Sylvain Filippi, compraram 20 dos iRacers avaliados em 110 mil dólares e vão vender os direitos de pilotá-los para as equipes interessadas. “É uma modalidade com um único fabricante porque queríamos que fosse o mais empolgante e competitiva possível”, afirma Lee. “Há tantos tipos diferentes de baterias e de motores que a única maneira de fazer uma corrida EV justa é usar um único tipo de carro na pista, deixando o foco nos pilotos.”

Cada iRacer carrega 340 quilos de baterias de fosfato de ferro-lítio que, por motivos de segurança, são distribuídas pelo carro em oito unidades de 50 volts cada. Na Fórmula E, as baterias terão de ficar acondicionadas em células resistentes. O objetivo é evitar que os pilotos fiquem expostos a mais de 50 volts em caso de uma batida, limite de segurança para o corpo humano. Somadas, as oito unidades armazenam os 400 volts necessários para fazer o carro correr.

Os pilotos da EV Cup vão competir em baterias com duração de 15 a 20 minutos, de acordo com a extensão do circuito. É o máximo de tempo que as baterias podem fornecer de energia. Um software instalado no iRacer vai definir o limite da potência em 90 quilowatts, suficiente para fazer o carro atingir 185 quilômetros por hora. Se uma equipe quiser, no futuro, dobrar a duração da corrida, terá a opção de ter baterias de maior capacidade, que aproveitam as nanoestruturas para armazenar carga extra.

O que impede isso de acontecer agora é a questão financeira. Para rodar o dobro do tempo, cada veículo custaria 285 mil dólares, quase três vezes mais do que os modelos atuais. O equilíbrio entre a velocidade máxima com a duração da corrida é o principal desafio da EV Cup. Ainda que a Toyota tenha quebrado o recorde de velocidade de um veículo elétrico, ela não conseguiria completar outra volta.

Painéis que geram som

Outro problema a ser resolvido é estético. Para a maioria dos fanáticos por corridas, o barulho é parte da graça do esporte. Em altas velocidades, os carros elétricos não são totalmente silenciosos por causa do crescente barulho dos motores elétricos e pneus. Mas é uma experiência muito mais silenciosa.

Uma ideia para contornar o problema é instalar alto-falantes pesados, o que reduziria ainda mais a duração da corrida. Para evitar isso, a Formulec, da França, quer converter painéis da carroceria em geradores de som. Já a Westfield pensa em colocar dispositivos acústicos passivos na lataria do iRacer, para ver quão perto eles podem chegar do zunido dos Pod Racers, de Guerra nas Estrelas. “Se conseguirmos fazer o som ficar próximo do futurístico ‘zuuuum’ seria ótimo”, afirma Faithfull. Resta saber até que ponto esse detalhe pode encantar os espectadores.

Fonte: Info 

 

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